Cine Parlatório: A Maldição das Salas de Exibição


Há algum tempo atrás, o ator Murilo Benício, em entrevista ao suplemento cultural de um prestigiado jornal carioca, afirmava que àqueles que prezam realmente o cinema, a melhor alternativa ao desrespeito traduzido na falta de modos da maioria esmagadora da assistência estaria nas sessões das 2ªs feiras às 14:00h – segundo o ator,  a única maneira de se evitar situações deploráveis como, em meio à trama, ouvir em alto e bom som a mocinha duas fileiras à frente descrever com riqueza de minúcias, à companheira ao lado, a salada  de folhas “chiquérrima” que tinha almoçado horas antes…

        Sem dúvidas, permanece dura a vida dos diletantes da 7ª arte, sob muitos aspectos – desde a concentração da maior parte das salas sob as asas dos grandes shopping centers, até o custo salgado dos ingressos nestes espaços, passando pela falta de alternativas ao cinema dito comercial : certos títulos, se oriundos de qualquer outra parte que não Hollywood, ainda que não fujam ao padrão eminentemente Hollywoodiano de cinema, são exibidos nas poucas “salas de rua” que escaparam das redes de drogarias ou de igrejas neo-pentecostais…e ainda assim, não raro, ficando uma semana, no máximo, em cartaz (há sempre a alternativa dos bons festivais nas cidades que os abrigam, mas, em eventos do gênero, disputados por quase todo cinéfilo que aguarda ansiosamente a oportunidade de assistir àquele filme búlgaro experimental tão bem referenciado no meio, as possibilidades de perde-lo e jamais encontrá-lo nem em DVD, nem na TV por assinatura, são grandes).

Restrinjamo-nos, todavia, ao problema da absoluta ausência de respeito travestida de individualismo nas salas de cinema – infortúnio que alcança a todos que de fato prezam os filmes,  como arte, entretenimento, o que for; sobretudo àqueles para os quais a fronteira entre os seus direitos e os da coletividade é enxergada em alta definição. Em se tratando de sessões de cinema, é corrente a presunção de que quem freqüenta as salas está interessado em assistir à atração, usufruí-la plenamente através dos sentidos próprios à apreciação da arte em referência, quais sejam, a visão e a audição. Não é antinatural supor que a pessoa que se dispõe a sair de casa e adquirir o ingresso, quer viver a experiência do cinema em sua plenitude, sem deixar escapar nenhum detalhe, qualquer fragmento de diálogo, qualquer segundo de ação; e até mesmo o mínimo ruído inerente ao enredo, ou componente da trilha incidental (intrínseco ao filme, portanto). Por outro lado, é notório que, a depender da trama, a perda de quaisquer dos ditos mínimos detalhes compromete, senão o absoluto entendimento do enredo, a fruição plena do filme. Ocorre que, hoje em dia, a condição primariamente favorável à apreciação desta forma de arte – ou à experiência desta modalidade de entretenimento – é cada vez mais frequentemente vilipendiada nas salas de exibição: tornou-se praticamente impossível assistir a uma sessão, do inicio ao fim, em nível mínimo de silêncio. E o vilipêndio, sob a forma de perturbação, se distribui por variados níveis, desde o ligeiramente incômodo até o rigorosamente intolerável, sobre todas as salas, indistinguindo localização, perfil do público, ou gênero de filme: o mal é magnanimamente democrático, neste caso.

        Contudo, tal situação, comum em todas as salas de exibição brasileiras, abre espaço a um questionamento importante, se assumirmos como padrão de conduta social correta a sobreposição dos direitos da coletividade sobre os do indivíduo: se maioria vai ao cinema hoje em dia para conversar, gritar, falar ao telefone celular, e comentar simultaneamente as cenas, não seria esta a conduta socialmente aceitável, devendo, portanto, aqueles que vão ao cinema para tão-somente assistir ao filme, inertizar a vontade de fazê-lo em silêncio? Trata-se de questão complexa, que demandaria artigo específico para esta discussão, ensejando linhas e linhas de definições a respeito de público e privado, sobre o que é moral ou imoral, neste caso, e até mesmo de alternativas de conciliação de dois grupos diametralmente opostos, em caso de a maioria relativa a um dos deles não ser assim tão acachapante: uma das quais, talvez, a discriminação de salas para falantes e não falantes, a exemplo do que acontece em restaurantes, com áreas para tabagistas e não tabagistas – sem faltar, naquelas últimas, cartazes ilustrando a figura de um lanterninha com o indicador em riste sobre os lábios, denotando imposição de silêncio no recinto, tal como nos ambientes hospitalares.

        Mas então, enquanto não aprofundamos a questão a respeito do que é direito coletivo e direito individual, e qual dos quais se impõe sobre o outro, suponhamos que prevaleça o direito daqueles que vão ao cinema para assistir ao filme em silêncio, sobre o daqueles que vão ao cinema para sociabilizar (com presentes e com ausentes, pois via de regra, quem freqüenta as salas de exibição para “fazer social” não abre mão do celular ligado). Em sendo assim, a vida do diletante da 7ª arte pode ser realmente definida com um calvário… sobretudo pela convivência forçada com a riquíssima  fauna dos “cine-sociáveis”: os cardumes de adolescentes que já entram fazendo uma algazarra tal que só terá fim nos créditos finais, quando eles já estão exaustos de grasnar…nestas horas, você que gosta de cinema fica na dúvida se realmente já foi mesmo adolescente algum dia, ou se passou batido por esta fase; os casaizinhos formados por mocinhas de raciocínio digamos…não linear, e rapazinhos que acham que estão entendendo o enredo, fazendo, não por acaso, as vezes de tradutores simultâneos da estória – se você já se acomodou próximo a estes dois exemplares numa sala de cinema, fatalmente já deve ter ouvido deles, ao subirem os créditos finais e  após um zum-zum-zum ininterrupto por todo o filme, algo do tipo: “more, o careca não era o padre?” “… não, mô, o careca era apenas careca, mas vestia batina…”. Há também os casais formados por um (a) especialista e um (a) incauto (a) – este (a), sempre ávido (a) pelos vaticínios, análises, diagnósticos e ponderações do outro (a)… claro, tendo sempre o filme em tela como mote: se a estória é sobre o aparato judicial brasileiro, eis um advogado com o entusiasmo alimentado por boquiabertos “É mesmo? Como assim ??? ” da outra parte, a tecer comentários sobre cada detalhe das cenas : “… Isso que ela fez aí, por exemplo,  não pode! É ilegal! É coação! Outro dia mesmo, lá no escritório…”. Mais um exemplar típico da fauna: as duplinhas de moças a matraquear durante todo o filme sobre as ultimas tendências da moda, dietas macrobióticas, os namorados ou amantes (delas e das outras), as outras mulheres (conhecidas ou não, de ambas ou de qualquer das duas)… no caso desta espécie, a tagarelice não raro começa já durante os traillers, e permanece completamente alheia ao filme até o  The end, quando elas interrompem a falação, e uma comenta: “Filme totalmente sem graça…você gostou? ” “…Eu não! Achei que faltou conteúdo…”. Outro espécime, desafortunadamente longe da extinção é visto nas matilhas de rapazinhos já passando dos 20 anos de idade, e plenamente convictos de um pujante talento humorístico, de deixar no chinelo qualquer integrante do CQC… a espécie é tão mais nociva, na medida em que a certeza de seus talentos cômicos está em proporção direta aos seus níveis de testosterona. Assim, é sempre fortemente não recomendável ao diletante de cinema tentar argumentar com qualquer um deles sobre a necessidade de silêncio no recinto, não somente porque, tal como cães, normalmente andam em bandos, mas porque também não hesitariam em estender uma arenga a plenos pulmões durante toda a exibição – e você, na condição de  envolvido no processo, passaria de incomodado a parte do incômodo. Este exemplar da fauna tem sua auto-estima em patamares tão elevados, que a rigor não precisa sequer parafrasear cada cena, cada diálogo do filme com uma tirada genialmente hilária, conforme normalmente o faz … basta tonitroar sua gargalhada retumbante por toda a sala, para brindar a platéia inteira com o seu talento. Ele é o centro da festa, todos os espectadores estão ali para rir de suas gracinhas, o filme em tela existe apenas para pano de fundo de sua luz ofuscante. Há ainda uma outra espécie mais rara (por estar, via de regra, limitada ao um nicho mais restrito), porém não menos inconveniente: o cinéfilo-crítico-douto: aquele cidadão que realmente entende muito do que se convencionou denominar de cinema de arte (ou, em alguns poucos casos, acha que entende). São os espécimes que pontuam todo o filme com resenhas críticas a respeito da carga dramática das cenas, da adequação do roteiro, da qualidade do enredo, dos figurinos, dos cenários, da fotografia, da trilha sonora… quando não, passam a exibição informando detalhes e curiosidades da ficha técnica da obra (“aquele ator trabalhou naquele outro filme dessa produtora, de 1936”… “esse diretor é o mesmo daquele filme rodado no Sudão…”). Contudo, como antes mencionado, tal espécie, embora longe também da extinção, é mais rara e, ainda assim, restrita aos festivais de cinema ou às salas onde aquele filme búlgaro ainda está em cartaz…

        Enfim, há outros exemplares mais ou menos inclassificáveis, mas partilhando todos, indiferentemente de idade, sexo, condição social, ou gênero de filme em exibição, dos mesmos gestos defenestráveis numa sala de cinema: os sussurros em tom de barítono, nem sempre inteligíveis, mas fatalmente perceptíveis, desde a ultima até a primeira fileira; o soerguimento despreocupado, em slow motion, no meio do filme, para sair da sala e ir ao banheiro, ou comprar pipoca, com direito a reprise ainda mais perturbadora no retorno; os pés jogados displicentemente sobre a poltrona da fileira à frente, inobstante alguém estar ou não sentado próximo às solas do calçado de quem está na fileira de trás; a submissão humilhante ao aparelho de telefone celular, que não permite deixá-lo, ao menos durante a exibição do filme, no modo silencioso (poder-se-ia dizer também modo vibratório, mas hoje o ruído característico é quase tão alto e perturbador quanto qualquer campainha); os abomináveis spots de luz branca ou azul, espocando por toda a sala durante todo o tempo de exibição (decorrência da defenestrável atitude anteriormente descrita): quando o exemplar entende que já pagou um tributo suficientemente alto ao direito dos outros, pondo o aparelho em modo silencioso, certamente considera que criar micro-holofotes a cada 15 min para enviar mensagens de texto não constitui incômodo para ninguém (mormente quando algumas dezenas de altruístas na sala têm, simultaneamente, a mesma brilhante idéia).

        Um ponto que cumpre ressaltar é que normalmente tais gestos ou tais exemplares da fauna do Cine-Parlatório emitem sinais inequívocos de comportamento muito tempo antes do início do filme – permitindo, portanto, uma idéia bastante confiável para um prognóstico da configuração geral da sala durante toda a exibição. Assim, o mau pressentimento se justifica quando o mancebinho da fileira de trás sustenta animado diálogo ao celular durante todo o tempo dos traillers; ou quando algum casal animadinho, acaba de adentrar a sala rindo descontraidamente, e vem se aproximando da sua fileira…ou quando os sacos de pipoca e copos de refrigerante arremessados para dentro da sala precedem a horda de adolescentes cheios de energia para gastar durante o filme inteiro; ou quando um dos rapazinhos da matilha dos humoristas inatos começa a dar sinais do seu talento, parafraseando em alto e nítido som, cada cena dos traillers com observações  definitivamente espirituosas … Claro, essas detecções e prognósticos não evitarão que você perca dinheiro, caso opte por deixar a sala antes que comecem a arrulhar, grasnar ou relinchar durante sessão, evitando o aborrecimento dessa convivência forçada; Também não  evitarão que você tenha torcicolo caso opte por deixar o lugar original, meticulosamente selecionado, para ir se acomodar na extrema esquerda da primeira fila, fugindo assim aos casaizinhos especialistas  ou  comentaristas-de-raciocínio-duvidoso.

Então, enquanto não discriminam salas para falantes e não falantes, ou diponibilizam fones de ouvido para quem não desejar interferência sonora alguma durante a sessão, restarão sempre as sessões das 2ªs feiras, às 14:00 h – para os que não precisam trabalhar, ou para os que precisam, mas cujos empregos, pela natureza específica,  permitem tamanha flexibilidade de horário.

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